
*Vim, vi e invejei
Vou começar minhas impressões sobre este que – para mim - foi uma das paradas mais interessantes da viagem: o edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. É um dos prédios com o qual mais me identifiquei, na condição de estudante de arquitetura. É impossível fugir do clichê “que inveja!” quando se contemplam os espaços amplos e integrados do prédio da FAU. O conceito de continuidade espacial e de integração entre os usuários está explicito na circulação – tanto vertical quanto horizontal – que também é local de encontro, de convivência e de trabalho. Seus seis pavimentos ligados por rampas amplas e suaves dão a sensação de um solo plano, espaço contíguo e não-hierarquizado. É um espaço democratizado, sem portas, como se fosse uma ágora moderna, ou um templo. Todos os alunos de todos os períodos estão em constante contato, o que propicia uma interação valiosa, fato que me impressiona ainda mais quando contrastado com a realidade da UFU.

Não é de se surpreender que seja um projeto tão feliz, e tão integrado com o projeto acadêmico, levando-se em conta sua concepção. Artigas não apenas concebeu o espaço: - fazia parte do grupo de professores responsáveis pela criação da FAU em 1948, e foi um dos professores mais envolvidos com os rumos da escola, sendo também responsável pelo projeto de reforma curricular implantado na década de 1960. Desse modo, fica fácil identificar no prédio as manifestações físicas de seus ideais.
O resultado é que o caráter do prédio não aceita a apatia e não permite a complacência dos alunos, sempre favorecendo e estimulando a troca, o debate e a vivência arquitetônica, seja pela qualidade dos seus espaços, seja pelos desafios que apresenta.
No tocante a esses desafios, o mais aparente (e imediatamente criticado) de todos é o problema das infiltrações, devido a problemas na execução da cobertura, com seu inovador uso das vigas em V como responsáveis pela condução da água da chuva. Isso imediatamente me trouxe à cabeça uma citação atribuída a um dos meus arquitetos favoritos (e pelo que consta, uma das influências de Artigas em sua primeira fase), Frank Lloyd Wright: “If the roof doesn’t leak, the architect hasn’t been creative enough”. As obras de Wright são notórias por seus problemas com infiltrações, o que, sem dúvida alguma, advém de sua ousadia e das soluções técnicas inovadoras adotadas, que estavam anos à frente do praticável. Na verdade, problemas com infiltrações em obras arquitetônicas dignas do termo são tão freqüentes que uma máxima constantemente repetida é que “toda boa arquitetura tem goteiras”.
A princípio parece um contra-senso caracterizar uma obra de arquitetura como bem sucedida quando ela falha tão gritantemente em um dos aspectos mais básicos de uma construção, que é prover abrigo dos elementos. Essa primeira impressão de falha é ainda mais forte por se tratar de uma obra institucional, o que cria uma expectativa de solidez ainda maior. E ainda por cima em uma escola de Arquitetura! Para o leigo, seria um caso clássico de “casa de ferreiro, espeto de pau”. Afinal de contas, não se encontram goteiras em shopping centers, não se vêem estalactites nas lojas padronizadas do McDonald’s, e, acredito, não ocorrem infiltrações tão catastróficas no pastiche neoclássico banal da nova loja da Daslu. Na verdade, se escolhermos aleatoriamente qualquer edificação que represente a completa antítese do que consideramos Arquitetura (com “A” maiúsculo), é muito provável que ela não apresente goteiras – certamente não com a dramaticidade do encontrado na FAU-USP. Tome-se, por outro lado, uma obra celebrada como qualquer uma das casas de Wright, ou a Villa Savoye, de Le Corbusier, ou mesmo um dos devaneios formais de Frank Ghery e sem dúvida vamos encontrar uma pletora de problemas com infiltrações, ou questões estruturais. Consta, por exemplo, que Le Corbusier só escapou de um processo pelos proprietários da Villa Savoye devido ao início da Segunda Guerra Mundial. As anedotas sobre as infiltrações nas obras de Wright são muitas, também (
Na verdade, no cerne da prática arquitetônica está a profunda ambivalência (do latim ambi, significando “ambos”, e valentia, significando “força”: a existência simultânea, e com a mesma intensidade, de dois sentimentos ou duas idéias com relação a uma mesma coisa; é o oposto da indiferença.) entre a Forma e a Função. Se formos à origem do discurso arquitetônico, Vitrúvio já enumerava os princípios da arquitetura como sendo utilitas, venustas e firmitas, ou seja: utilidade, beleza e solidez. Conclui-se, então, que desde sua gênese, já se postulava que a arquitetura deveria conciliar o caráter prático com o intangível da experiência espacial. Não fosse por isso, o arquiteto não seria nada além de um técnico, como um projetista, um mestre de obras ou um pedreiro. Qualquer um pode resolver o problema da função de uma casa, por exemplo. Basta ter vivido em uma. Nesse sentido, o instinto de se construir um abrigo é um dos mais básicos do ser humano, e não é surpresa alguma que se praticasse a edificação muito antes do surgimento da escrita, por exemplo. Isso não implica que qualquer um possa praticar arquitetura. A arquitetura de qualidade é maior que a soma de suas partes, sua força é fruto da tensão que é criada por todos os seus elementos mais intrínsicamente contraditórios. O mérito do arquiteto está na conciliação desses elementos.
O que torna a FAU uma grande obra de Arquitetura, e mais perfeita ainda para uma escola de arquitetura, é seu instigante dualismo: o prédio cumpre as funções para qual foi projetado, em meados da década de 60, mas ao mesmo tempo apresenta sérias limitações em função do que se espera do ensino moderno da arquitetura no século XXI (a nossa guia reclamou durante a nossa visita da dificuldade de se implantar um laboratório de informática em um prédio tão aberto, ou coisa do gênero). Ele resolve problemas e cria problemas. Você sente a todo o momento sua força, sua presença, mesmo que seja na forma de pingos na sua cabeça, como uma benção de uma santa que chora. O prédio é um artefato que age sobre seu corpo e sua mente, para o bem e para o mal. E para um estudante de arquitetura, que lugar melhor para sua formação do que um espaço que cria efeitos e sensações espaciais, afastando a banalidade (seca) do cotidiano, e ainda levanta debates técnicos e construtivos quase 40 anos depois de concluído? Cada momento que se passa lá dentro é um momento arquitetônico, e francamente, só se o prédio não fosse tão provocativo, aí sim talvez eu me importasse pra onde cai a água da chuva. É como disse uma proprietária de uma das casas de Wright, quando indagada sobre os problemas com infiltrações: “É o que se ganha quando se deixa uma obra de arte na chuva”.

Pessoalmente, eu chego a esperar que o problema das infiltrações nunca seja sanado por completo. Não me entendam mal, não é que eu ache que o arquiteto não deva se preocupar com a integridade estrutural ou a funcionalidade básica de um edifício, e se dedicar exclusivamente com um caráter conceitual e abstrato do espaço: muito pelo contrário. Mas é que eu me lembro de ter visto no Discovery Channel (ou no History Channel, ou National Geographic ou qualquer coisa do gênero) que existem alguns templos antigos no Japão que, para manutenção, são desmontados e reconstruídos pela comunidade de tempos em tempos. Assim, cada geração acaba reafirmando sua herança arquitetônica, e restabelecendo os valores que passarão para a próxima. Desta forma, a imperfeição inerente ao edifício é a mesma coisa que assegura sua perpetuação, e a continuação de seu propósito. E eu acredito que isso favorece que os futuros projetos dos arquitetos ali formados tenham muito menos infiltrações, e muito mais valor arquitetônico.
PS: - É interessante notar que uma das forças que levaram à realocação da FAU (e de outros cursos também) para seu local atual era a agitação estudantil da região em que a escola estava originalmente, na Vila Penteado (próxima a uma série de instituições de ensino superior). Essa agitação levou o governo militar da época a apressar as obras da Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira (distante do centro da cidade), com o claro intuito de desarticular os movimentos estudantis, e a ironia foi que a nova sede da FAU apresentava um espaço muito mais favorável a esse tipo de articulação. Uma mesma atitude de “dividir para conquistar” se vê na UFU atualmente (guardadas as devidas proporções, é óbvio), com a tendência cada vez maior de se desvincular as faculdades de seus blocos e de dispersar as aulas pelo campus, perdendo-se assim a importante identidade do aluno com uma estrutura e dificultando mais ainda a integração entre os alunos de diferentes períodos.